
A Associação dos Delegados de Polícia Federal criticou, nesta quinta-feira (23), declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre a atuação de integrantes da Polícia Federal e afirmou que a fala desqualifica profissionais da instituição e simplifica o debate sobre segurança pública.
A reação ocorre após Lula afirmar que pediu ao ministro da Justiça e Segurança Pública a convocação de delegados que estariam fora da linha de frente no combate ao crime organizado. Segundo o presidente, apenas ficariam de fora aqueles que estariam “fingindo trabalhar”.
Em nota, a ADPF rebateu a declaração e classificou a avaliação como equivocada. A entidade destacou que apenas 53 delegados estão cedidos a outros órgãos — o que representa menos de 3% do total em atividade — e argumentou que o número não justifica a crítica nem teria impacto relevante nas ações contra o crime organizado.
“Declarações que desqualificam policiais não contribuem para esse objetivo e fragilizam o debate público sobre segurança”, afirmou a associação.
A entidade também criticou o que considera uma abordagem simplificada do governo para enfrentar o crime organizado. Segundo a ADPF, o problema exige planejamento estrutural e investimento contínuo.
“É preciso menos propaganda e mais ações concretas, como capacitação e inteligência estratégica”, diz o posicionamento.
Na prática, a crítica aponta que medidas pontuais, como a convocação de servidores, não seriam suficientes para alterar o cenário da segurança pública sem políticas mais amplas.
Outro ponto levantado pela associação é a redução no interesse pela carreira de delegado da Polícia Federal. De acordo com a entidade, 104 profissionais ingressaram na corporação nos últimos três anos, enquanto 50 deixaram o cargo no mesmo período.
Além disso, o número de inscritos em concursos caiu de 321 mil em 2021 para 218 mil em 2025 — uma redução de mais de 100 mil candidatos, o que, segundo a ADPF, indica perda de atratividade da carreira.
O debate ocorre em um momento em que a segurança pública ganha centralidade no cenário político nacional, especialmente com a proximidade das eleições. O tema é apontado como um dos principais fatores de influência sobre o eleitorado.
Na quarta-feira (22), o governo federal anunciou a convocação de mil novos agentes da Polícia Federal como parte das medidas para reforçar o combate às organizações criminosas.
A divergência entre o governo e a entidade evidencia tensões sobre a condução das políticas de segurança e o papel das instituições no enfrentamento ao crime organizado.