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Governo repete fórmula do Desenrola e ignora raiz dos juros abusivos

Nova fase do programa aposta em renegociação de dívidas com apoio dos bancos, mas não enfrenta fatores estruturais que sustentam o crédito caro no país

Redação
Por: Redação
29/04/2026 às 09h43
Governo repete fórmula do Desenrola e ignora raiz dos juros abusivos
Gabriela Biló/Folhapres

O governo federal avançou nesta semana nas discussões sobre o Desenrola 2.0, nova etapa do programa de renegociação de dívidas voltado às famílias brasileiras. Em reunião realizada na segunda-feira (27), o ministro da Fazenda, Dario Durigan, se encontrou com representantes dos principais bancos para tratar das diretrizes da iniciativa, que pretende ampliar o alcance das renegociações.

Entre as medidas em estudo estão o uso do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para abater dívidas e a atuação do governo como garantidor das operações por meio do Fundo Garantidor de Operações (FGO). A proposta central é substituir dívidas com juros elevados por linhas de crédito mais baratas, reduzindo o peso das prestações no orçamento das famílias.

Alívio imediato e impacto para bancos

O modelo em discussão tende a beneficiar instituições financeiras ao permitir a recuperação de créditos considerados de difícil recebimento. Com a renegociação, esses valores podem voltar a ser contabilizados como ativos, melhorando indicadores dos bancos.

Para parte dos consumidores, a iniciativa pode representar um alívio imediato no fluxo de caixa, especialmente para aqueles com dívidas em atraso ou com juros elevados.

Na última sexta-feira, o governo também anunciou medidas para limitar práticas consideradas abusivas no crédito consignado para trabalhadores com carteira assinada, em tentativa de complementar o pacote.

Problema estrutural permanece

Apesar do potencial de curto prazo, o programa não altera os principais fatores que sustentam o alto custo do crédito no Brasil. As taxas elevadas continuam associadas a variáveis como risco de inadimplência, custos operacionais, carga tributária e ambiente macroeconômico.

Atualmente, grande parte do endividamento das famílias está concentrada em modalidades como rotativo do cartão de crédito, crédito pessoal não consignado e cheque especial — linhas conhecidas como “hot money”, utilizadas para despesas do dia a dia.

Esse padrão indica um desequilíbrio recorrente entre renda e gastos, em que famílias recorrem a crédito caro para cobrir despesas correntes, o que tende a perpetuar o ciclo de endividamento.

Risco fiscal em aberto

Outro ponto ainda indefinido é o grau de exposição do Tesouro Nacional. Como o governo pretende atuar como garantidor das operações por meio do FGO, eventuais inadimplências podem gerar impacto nas contas públicas.

Especialistas apontam que, sem mudanças estruturais no mercado de crédito, programas de renegociação tendem a ter efeito limitado e temporário, funcionando mais como mecanismo de reorganização de dívidas do que como solução definitiva.

Próximos passos

O governo deve detalhar nas próximas semanas o formato final do Desenrola 2.0, após avançar nas negociações com o sistema financeiro. A expectativa é ampliar o alcance das renegociações, mas o efeito prático dependerá das condições oferecidas e da capacidade de evitar a reincidência do endividamento.

Enquanto isso, o cenário do crédito no país segue marcado por juros elevados e acesso restrito a linhas mais baratas, mantendo o desafio de equilíbrio financeiro para milhões de brasileiros.

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